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Como posso ajudar meu filho a ter um relacionamento saudável com seu próprio corpo?


Pergunta de uma criança na sessão de correspondência de uma revistinha da Magali,

personagem da Turma da Mônica.


Talvez muitas pessoas olhem esta imagem e achem graça de uma criança querer saber o segredo da Magali para comer e não engordar, mas será apenas uma curiosidade???


Logicamente isso é um recorte de uma realidade, logo não podemos afirmar com certeza, mas me chama a atenção que esta criança possa estar buscando uma receita milagrosa para comer e não engordar, por um corpo magro e considerado ideal.


Como falamos no post sobre Normalização da insatisfação corporal (link), estar insatisfeito com a imagem que vemos no espelho parece ser um incômodo cada vez mais comum e que atinge todo mundo, em todas as idades, até mesmo crianças. As preocupações são diversas, vão desde o tamanho de suas barrigas, coxas, formato do nariz, bochechas e, até mesmo, de suas partes íntimas. Junto com as preocupações, vêm as “soluções” - dietas, procedimentos e cirurgias - e a crença de que seu valor depende de um corpo perfeito.


Mas como mudar esse cenário e ajudar as crianças a terem uma relação mais saudável com o corpo?


Primeiro é preciso entender o que é imagem corporal e como ela se forma…



A imagem corporal é a “figura mental” que temos das nossas medidas, contornos e forma corporal, bem como os sentimentos, pensamentos e comportamentos que essa “figura mental” provoca na gente. A imagem corporal começa a se formar bem cedo, ainda na infância, e pode ser positiva ou negativa.


Na imagem corporal positiva a pessoa se sente satisfeita com o próprio corpo, reconhecendo suas potencialidades e limites. Aceita e aprecia o corpo que possui, mesmo que tenha o desejo de mudar uma coisa ou outra na aparência. Já uma imagem corporal negativa envolve uma insatisfação com a aparência, com o peso e com a forma corporal, podendo gerar distúrbios emocionais e alimentares, inclusive em crianças.


A imagem corporal se forma a partir da interação com os outros e com o que nos cerca, de modo que os pais (ou responsáveis), assim como o núcleo familiar, acabam sendo uma forte influência para a criança. Assim, alguns comportamentos vão servir como modelo do que é “socialmente aceitável” e como base para a formação imagem corporal, como comentários sobre o corpo da criança, conversas sobre dietas e exercícios físicos, assim como a atitude dos familiares sobre a própria aparência, a exemplo de comentários sobre o próprio corpo, prática de dietas e hábito de se pesar constantemente.


A medida que a criança cresce, além do ambiente familiar, ela passa a ocupar outros locais, sendo o principal deles a escola, passando a ser influenciada também pelos amigos. Em geral, amigos têm os mesmos interesses e valores e, quando esses interesses e valores se relacionam com a aparência e a forma corporal, a criança pode acabar se sentindo insatisfeita com o próprio corpo na medida em que busca se identificar com o grupo.

Além da família e dos amigos, a mídia também tem uma forte influência, seja através da televisão, revistas, outdoors, videogame, cinema, redes sociais, etc. Nestes diversos meios, são exibidas e propagadas imagens de corpos ideais, que como já discutimos aqui no blog no post sobre Racismo fenotípico (link) são corpos brancos, de traços finos, magros e musculosos e baseados nas características físicas do típico branco europeu. As mídias são tão presentes e frequentes em nosso cotidiano, que toda esta exposição à essas imagens podem acabar gerando insatisfação corporal e a busca pelo corpo perfeito, na medida em que se internaliza como ideal, o padrão de beleza que é divulgado.


Em crianças, além das mídias citadas acima, os brinquedos e os desenhos animados são um outro fator de forte influência, podendo contribuir na idealização de um corpo, uma vez que bonecos, bonecas e personagens são representados com corpos cada vez mais magros, como por exemplo a Barbie e as princesas, e musculosos, como por exemplo o Max Steel e os super heróis.

Como deu para perceber, a formação da imagem corporal é complexa e sofre diversas influências. As crianças conseguem observar e perceber quais são as características que a sociedade valoriza e considera atraente, e quais ela rejeita, passando então a se comparar com o modelo de corpo ideal que aprendeu e desenvolvendo uma imagem corporal positiva ou negativa.


Uma vez que vivemos em uma sociedade que valoriza o corpo perfeito, magro e musculoso e a busca por dietas e procedimentos estéticos não param de crescer, tem sido comum as crianças desenvolverem uma insatisfação corporal, o que impacta na diminuição da autoestima e pode levar à mudanças de atitude e comportamento, como práticas de exercícios com objetivo de perder peso, dietas para emagrecimento, julgamento de outras pessoas pela aparência, além de poder desencadear distúrbios da imagem corporal e transtornos alimentares.


E como os pais podem ajudar seus filhos a construírem uma imagem corporal positiva?



1. Seja um exemplo para seu filho. Não faça dietas e, caso tenha uma doença em que seja necessário fazer alguma mudança alimentar, busque um nutricionista para te acompanhar. Não fique se pesando com frequência ou checando sua aparência no espelho e evite fazer comentários sobre o seu corpo, peso e aparência na frente do seu filho. Faça com regularidade uma atividade física que seja prazerosa para você, se alimente de forma saudável, mas não perfeita, permitindo que tenha espaço para todos os alimentos na sua alimentação.


2. Perceba se você fica reparando na aparência e no peso de outras pessoas! Ou até mesmo julgando, mesmo que seja só uma vozinha dentro da sua cabeça que pensa “Nossa, como fulaninho engordou!”, que depois vira um comentário breve e inocente. Estas atitudes podem fazer com que seus filhos acreditem que só a aparência importa. Valorize a importância das pessoas quanto a suas qualidades e não quanto a sua aparência física.


3. Converse com seus filhos sobre tudo que os nossos corpos conseguem fazer ao invés de como eles aparentam ser, lembrando que eles nos permitem abraçar, andar, brincar, etc e eduque seus filhos sobre a diversidade de corpos, dando exemplos de pessoas de diferentes tamanhos e tipos de corpos fazendo coisas incríveis.


4. Não faça comentários sobre a aparência do seu filho, mesmo que sejam comentários positivos como fofo, lindo, bonito, etc. Mostre entusiasmo sobre seu filho em outras áreas que não envolvam aparência, como desempenho escolar ou esportivo. Reconheça e elogie quando ele faz algo bom para os outros, quando toma iniciativa, é criativo, talentoso e perseverante no que deseja.


5. Ajude o seu filho a construir uma visão crítica por meio de conversas sobre os corpos e imagens divulgadas pela mídia, televisão, anúncios e redes sociais. Mostre o que é real e o que foi editado ou mesmo manipulado pela luz e posição da pessoa e fale sobre como aquelas imagens perfeitas não são reais.


6. Estabeleça uma política de “tolerância zero” para comentários e provocações sobre peso e aparência. Estes comentários podem ser dolorosos e afetar a autoimagem de crianças e adolescentes. Explique para seus filhos que este tipo de comentário magoa e, portanto, não serão tolerados em casa.


7. Construa um ambiente de muita conversa e principalmente de escuta com seus filhos. Dê suporte quando eles compartilham sobre suas preocupações com o peso e com o corpo e busque identificar o que está por trás destas preocupações (por exemplo, uma criança pode dizer que quer emagrecer, quando na realidade está sofrendo bullying na escola por causa do seu peso). Mantenha sempre uma comunicação aberta e demonstre amor incondicional, deixando claro para seu filho que seu amor independente do peso que ele tem.


Referências

ASTRALBR. Promovendo uma imagem corporal positiva: um guia para os pais (Material traduzido e adaptado de Parents's Guide to Student Bodies), 24 ago. 2020. Instagram: @astralbr. Disponíbel em: https://www.instagram.com/p/CERm54ElA0d/. Acesso em: 06 out. 2020.

BUILDING Your Kid's Body Confidence. Vídeo do Canal The Swaddle (You Tube). Disponível em: https://youtu.be/wcjYEddX9mU

CIPRIANI, Flávia Marcele. Imagem corporal na infância: uma investigação qualitativa. 2016. 164 f. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Federal de de Juiz de Fora: Juiz de Fora, 2016.

DA Redação. Meninas de apenas 11 anos procuram cirurgia íntima. Veja. Jul 201. Disponível em: https://veja.abril.com.br/saude/meninas-de-apenas-11-anos-procuram-cirurgia-intima/ Acesso em: 06 out. 2020.

NEUMARK-SZTAINER, Dianne. Prevention of eating disorders in child and adolescents. In: LE GRANGE, Daniel; LOCK, James. Eating disorders in children and adolescents: a clinical handbook. Epub ed. New York: The Guilford Press, 2011.

NEVES, Clara Mockdece. Escala de preocupações e comportamentos relacionados ao corpo na infância: desenvolvimento e avaliação psicométrica. 2017. 321 f. Tese (Doutorado em Psicologia) - Universidade Federal de Juiz de Fora: Juiz de Fora, 2017.

SMOLACK, Linda. Body image development in childhood. In: CASH, Tomas F.; SMOLACK, Linda. Body Image: a handbook of science, practice, and prevention. 2. ed. Nova York: The Guilford Press, 2012. p. 67 - 75.


Créditos das imagens

Imagem menina se olhando no espelho do fotógrafo @master1305

Imagem mulher se pesando em frente ao espelho do fotógrafo @nensuria

Imagem adolescentes do fotógrafo @rawpixel.com

Imagem crianças correndo do fotógrafo @rawpixel.com




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