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Gastro-anomia X Gastroautonomia

Atualizado: Jul 28

O ato de comer não é tão simples quanto parece e vai muito além de suprir necessidades biológicas! Ele está impregnado de símbolos da nossa cultura, sociedade, religião, família, classe econômica, das nossas experiências individuais e subjetivas, e até do nosso gênero! O nosso comportamento alimentar também é algo tão íntimo! Revelam os nossos medos, angústias, memórias e experiências mais profundas. A verdade é que comemos e levamos à nossa boca uma série de significados!

No entanto, a nossa sociedade não só limita o nosso comportamento alimentar à uma mera ingestão de nutrientes, como também nos deixa completamente confusos sobre o que devemos ou não fazer! “Coma isso, não coma aquilo, coma em tal horário, mastigue X vezes, coma em tal prato, faça a comida em tal panela…” Estranho é não ficar completamente perdido em meio à tantas recomendações e regras!


Em 1979, o sociólogo Claude Fischler criou o termo Gastro-anomia, conceito que ilustra muito bem esse caos alimentar em que vivemos. Esse termo está relacionado à diversas compreensões, dentre elas a de que a alimentação não se resume apenas a ingestão de nutrientes. Quando nos alimentamos, comemos comida, e também nos nutrimos de todos os significados permeados por aquele alimento.


Além disso, esse termo diz respeito ao conjunto de regras alimentares que somos condicionados a incorporar de maneira automática e inconsciente, estabelecidas a partir do que deveríamos comer ou da maneira como nos alimentamos. Toda sociedade estabelece um conjunto de normas a respeito das práticas e condutas alimentares acerca do que comer, como comer, qual horário, quantidade, onde comer, combinação de alimentos, o que não comer. Contudo, existe uma grande quantidade de informações acerca da alimentação, o que só dificultou e tornou mais complexo o comer para o indivíduo. As pessoas são expostas em diversos meios (revistas, notícias, redes sociais) a conteúdos que muitas vezes são incoerentes entre si, e que dão a sensação de estarmos fazendo “tudo errado”. Isso gera sofrimento, insegurança, ansiedade, frustração e culpa.


É difícil saber fazer uma escolha, quando você tem mil prescrições, recomendações e proibições! E isso dá vazão para a culpabilização do indivíduo em relação à sua saúde, porque “basta fazer a escolha certa” e “seguir uma prescrição”, que você irá emagrecer! Além disso, isso viabiliza uma relação cada vez mais disfuncional e conflituosa com o ato de comer, uma vez que essas regras estão cada vez mais relacionadas a uma necessidade de adquirir e atingir um padrão de corpo ideal.


A tendência é que cada vez mais, a gente desconfie e nos afaste das necessidades afetivas e emocionais do nosso corpo, ou melhor, recusamos o nosso corpo! Terceirizamos as nossas escolhas individuais baseadas nas decisões alheias, e não do que de fato acreditamos ser melhor para nós mesmos! Perdemos nossa liberdade, perdemos a nossa autonomia! Então cadê a nossa Gastroautonomia?


Oportunamente, Claude Fischler também discute acerca da sobrecarga cognitiva que esse excesso de informações nos ocasiona, ou seja, é um bombardeio tão grande de conteúdos, que não conseguimos e nem temos espaço para interpretar todos eles:


“Além dos especialistas, médicos e nutricionistas, bombardeando as pessoas com uma proliferação de novas e contraditórias informações nas revistas, jornais, rádios e televisão, além das celebridades dizendo o que comem para ficarem belas, jovens e saudáveis, a internet se tornou um banco de dados inesgotável sobre o que se deve ou não se deve comer, dos benefícios e malefícios de determinados alimentos e, também, das diferentes doenças causadas por eles. Esse excesso de informações bombardeando as pessoas criou um sentimento que acredito ser geral de total confusão ou incompetência dos comedores.”


Que tal refletirmos sobre a seguinte questão:

Se considerarmos o ditado "Você é o que você come”, mas vivemos em uma sociedade onde sequer sabemos o que deveríamos comer, quem seríamos nós? Será que atingimos uma verdadeira crise de identidade?


Será que eu deveria comer um chocolate 80% cacau que é cheio de compostos bioativos e oxidantes, ou comer um chocolate ao leite, que me dá prazer, e me remete tanto à Páscoa, um momento que eu partilhava com a minha família?



Se você se encontra muito confuso em relação à que orientação seguir, e quer acessar informações de maneira confiada e adequada, já fizemos um post sobre o Guia Alimentar para a População Brasileira. Ele contém as principais diretrizes alimentares para a população, formuladas a partir da construção de vários setores da sociedade, e que apresenta alguns princípios que nortearam a sua formulação, dentre eles, a concepção de que a alimentação não pode ser entendida como uma ingestão de nutrientes; que para ser saudável, necessita estar relacionada a um sistema de produção socialmente e ambientalmente sustentável; que leve em conta saberes tradicionais e culturais; e que gere autonomia para os indivíduos, promovendo relações sociais, econômicas políticas e culturais de forma mais justa.


Por fim, trago essa crônica de Luis Fernando Veríssimo, intitulada “O Ovo”, escrita em outubro de 2013, que ilustra muito bem esse caos que a gastro- anomia nos traz!


“Agora essa. Descobriram que ovo, afinal, não faz mal. Durante anos, nos aterrorizaram. Ovos eram bombas de colesterol. Não eram apenas desaconselháveis, eram mortais. Você podia calcular em dias o tempo de vida perdido cada vez que comia uma gema. Cardíacos deviam desviar o olhar se um ovo fosse servido num prato vizinho: ver o ovo fazia mal. E agora estão dizendo que foi tudo engano, o ovo é inofensivo. O ovo é incapaz de matar uma mosca. A próxima será que o bacon limpa as artérias. Sei não, mas me devem algum tipo de indenização. Não se renuncia a pouca coisa quando se renuncia a ovo frito. Dizem que a única coisa melhor do que ovo frito é sexo.


A comparação é difícil. Não existe nada no sexo comparável a uma gema deixada intacta, deixada em cima do arroz depois que a clara foi comida, esperando o momento do prazer supremo, quando o garfo romperá a fina membrana que a separa do êntase e ela se desmanchará, sim, se desmanchará, e o líquido quente e viscoso correrá e se espalhará pelo arroz como as gazelas douradas entre lírios de Gileade nos cantares de Salomão, sim, e você levará o arroz à boca e o saboreará até que o último grão molhado, sim, e depois ainda limpará o prato com o pão. Ou existe, e eu é que tenho andado na turma errada.


O fato é que quero ser ressarcido de todos os ovos fritos que não comi nestes anos de medo inútil. E os ovos mexidos, e os ovos quentes, e os omeletes babados, e os toucinhos do céu, e, meu Deus, os fios de ovos. Os fios de ovos que não comi para não morrer dariam várias voltas no globo.


Quem os trará de volta? E pensar que cheguei a experimentar ovo artificial, uma pálida paródia de ovo que, esta sim, deve ter roubado algumas horas de vida, a cada garfada infeliz.


Ovo frito na manteiga! O rendado marrom das bordas tostadas na clara, o amarelo provençal da gema... Eu sei, eu sei. Manteiga não foi liberada. Mas é só uma questão de tempo.”


Referência

GOLDENBERG, Mirian. Cultura e gastro-anomia: psicopatologia da alimentação cotidiana. Entrevista com Claude Fischler. Horiz. antropol., Porto Alegre , v. 17, n. 36, p. 235-256, Dec. 2011 .


Créditos da imagem

@bichinhosdejardim








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