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Normalização da insatisfação corporal

Você já percebeu como hoje em dia parece que ninguém está satisfeito com o corpo que tem?


“Queria ter uns quilos a menos”

“Queria que meu peito fosse maior/ menos caído/ menor”

“Queria que meu bumbum fosse menos flácido/ não tivesse estria/ celulite”

“Queria que minha barriga fosse mais lisinha/ tanquinho”

“Queria que meu nariz fosse mais fino”


Esses são apenas alguns exemplos, mas eles são infinitos! Ousaria dizer que não existe ninguém (ou quase ninguém), que não deseje mudar NADA no próprio corpo. Observa-se uma crescente insatisfação corporal, que se inicia cada vez mais cedo e que não faz distinção de sexo, cor ou classe.

A forma como percebemos o nosso corpo depende da nossa capacidade de se perceber e perceber o mundo externo a nós, bem como das nossas crenças e significados sobre o corpo ou suas partes, sendo influenciada pela sociedade, pela cultura em que se vive, por fatores psicológicos, pelas nossas relações interpessoais e vivências pessoais.


Deste modo, a cultura e sociedade em que vivemos, que supervaloriza o corpo magro, musculoso, com traços finos, olhos claros e pele branca, e que nos bombardeia de imagens tratadas digitalmente de corpos sarados e “perfeitos”, acabam por interferir no modo como percebemos o nosso corpo. Com isso, existe um constante desconforto com a forma corporal, e com características próprias e que deveriam ser únicas a cada indivíduo, como por exemplo a largura do quadril, a cor dos olhos, o tamanho das bochechas, etc. (Discutimos de forma mais aprofundada sobre este assunto no post anterior que fala sobre o racismo fenotípico!)

Este padrão de “beleza ideal” que trata a imagem corporal como mercadoria provoca sofrimento psíquico e uma incessante sensação de inadequação, uma vez que de tempos em tempos, um novo modelo ideal é criado, bem como as necessárias intervenções para atingi-lo. Assim, muitos seguem na busca de um padrão corporal irreal e inatingível, que dita o valor das pessoas e deixa de lado todos os outros aspectos que constituem a nossa identidade para além do corpo físico, como a espiritualidade e a intelectualidade.


Tal desconforto atinge a todos, inclusive crianças. De acordo com a Pretty Foundation — uma organização australiana sem fins lucrativos, "34% das meninas de 5 anos pretendem fazer dieta" e “38% das meninas de 4 anos estão insatisfeitas com seus corpos". Estes dados alarmantes são reflexo do desconforto generalizado com o corpo observado na nossa sociedade!


As crianças têm contato com o “padrão corporal ideal” por meio de familiares, professores, conhecidos, coleguinhas e até mesmo de livros e brinquedos, que estão cada vez mais fortes (no caso dos bonecos) e mais magras (no caso das bonecas). A criança, a partir do momento que se percebe como indivíduo, começa a formar sua percepção corporal e comentários sobre peso, tamanho, elogios e apelidos baseados na aparência podem influenciar nas suas percepções, valor e auto estima.

Somada à pressão estética de beleza e desconsiderando todos os aspectos subjetivos e culturais relacionados ao comer (já discutidos anteriormente aqui no blog), as dietas para emagrecimento são oferecidas como meio de atingir o tão sonhado “padrão corporal”, bastando para tanto, disciplina para controlar os impulsos e desejos pela comida.


Como observado por Susie Orbach, no prefácio atualizado do livro Gordura é uma questão feminista, de fato, parece que atualmente é “normal” ter questões com o corpo e com a comida:


“Alimentos e corpos têm se tornado um desafio para meninas e mulheres (e cada vez mais meninos e homens) de todas as idade, classes, etnias e localidades. Esta grave situação é quase aceita como natural. Muitas das pessoas que buscam terapia impulsionadas por outros motivos - insegurança, perda de um parceiro, problemas com intimidade, e assim por diante - tem comportamentos alimentares que seriam classificados em um “diagnóstico” de transtorno alimentar. No entanto, elas não esperam encontrar alívio para suas dificuldades com o corpo e com a comida. Elas nem mesmo levantam essas questões, exceto de passagem, porque ter problema em relação à comida, apetite e desejo está integrado à sua percepção de Self. É o preço da modernidade. Elas vêem suas mães, irmãs, avós e tias igualmente em apuros e, como com os pés amarrados no passado, esperam continuar com o problema e seguir apenas o gerenciando.”

A fim de desmistificar e lutar contra o modelo corporal imposto, interromper este ciclo de insatisfação crônica com o corpo que está sendo amplificado e passado de geração para geração, e resgatar a beleza das singularidades de cada um, precisamos ampliar a discussão e desenvolver um pensamento mais crítico a respeito dos padrões corporais. Precisamos também discutir sobre como evitar que crianças tão precocemente já tenham questões corporais que irão afetar o modo com que se percebem para o resto de suas vidas.


Vamos fazer as pazes com a gente?




Referências

BUILDING Your Kid's Body Confidence. Vídeo do Canal The Swaddle (You Tube). Disponível em: https://youtu.be/wcjYEddX9mU

CUCH, Renata Cabral. A mulher D’Elle: o ideal de beleza contemporâneo estampado na capa da revista. Leitura Flutuante, São Paulo, v. 2, n. 5, p. 57-81, 2013.

ONGORATTO, Sabrina. Imagem corporal: 38% das meninas de 4 anos estão insatisfeitas com seus corpos. Revista Crescer. Jul 2019. Disponível em: https://revistacrescer.globo.com/Criancas/Comportamento/noticia/2019/07/imagem-corporal-38-das-meninas-de-4-anos-estao-insatisfeitas-com-seus-corpos.html?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=post&fbclid=IwAR29UjdCYq1V79EpCYajd_iXSEorbQ5hfdw_xQO_IFA5NxzeOTYhZcINnxI

ORBACH, Susie. Fat is a feminine issue. Cornerstone Digital, 2010.

THURM, Bianca et al. Imagem corporal nos transtornos alimentares - conceitos e abordagem das questões corporais. In: ALVARENGA, Marle dos Santos; DUNKER, Karin Louise Lenz; PHILIPPI, Sonia Tucunduva (org.). Transtornos alimentares e nutrição da prevenção ao tratamento. 1. ed. Barueri: Manole, 2020. p. 207 - 234.


Créditos das imagens

Imagem 1 da ilustradora Tina Bits

Imagem 2 da designer e artista Madison Reid

Imagem 3 do vídeo Building Your Kid's Body Confindence

Imagem 4 da ilustradora Eve Mae




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