• .

Qual a relação entre o racismo fenotípico e a insatisfação com o corpo?


Antes mesmo de entendermos como a insatisfação corporal está relacionada ao racismo, precisamos refletir acerca do nosso corpo, um corpo que carrega marcas. Mas que marcas são essas e o que elas significam?


“Diz-se que corpos carregam marcas. Poderíamos, então, perguntar: onde elas se inscrevem? Na pele, nos pelos, nas formas, nos traços, nos gestos? [...] Hoje, como antes, a determinação dos lugares sociais ou das posições dos sujeitos no interior de um grupo é referida a seus corpos. Ao longo dos tempos, os sujeitos vêm sendo indiciados, classificados, ordenados, hierarquizados e definidos pela aparência de seus corpos; a partir dos padrões e referências, das normas, valores e ideais da cultura. [...] A cor da pele ou dos cabelos; o formato dos olhos, do nariz ou da boca; a presença da vagina ou do pênis: o tamanho das mãos, a redondeza das ancas e dos seios são, sempre, significados culturalmente e é assim que se tornam (ou não) marcas de raça, de gênero, de etnia, até mesmo de classe e de nacionalidade.”

LOURO, 2008


A cultura, de alguma maneira, tem sua parcela de responsabilidade ao atribuir significados à essas marcas, que irão classificar os seres humanos, viabilizando a segregação, a violência e a exclusão, produzindo desta maneira, relações desiguais. São essas mesmas marcas que irão dizer se o sujeito será acolhido ou não, excluído ou aceito e obterá privilégios ou desvantagens.


Na nossa cultura, pessoas que carregam marcas como a pele clara, cabelos lisos, olhos azuis e narizes finos são relacionadas à um padrão de beleza ideal, tornando-se objeto de desejo e valor para toda a espécie humana. Desta maneira, tem-se o racismo fenotípico, em que se atribui uma referência ideal de aparência, baseada em características físicas: “quanto mais claros (ou menos escuros) de pele, menos discriminados; e, quanto mais escuros, mais facilmente situados na parte inferior da hierarquia dos seres humanos."


Logo, os seres humanos são tratados a partir das características de sua pele, e o homem branco ocidental torna-se superior à todos aqueles não-brancos, em que estes últimos, tratados como seres inferiores, internalizam essa inferioridade, e passam a se relacionar com o mundo por meio de tal perspectiva. Produz-se de tal maneira uma patologia de desconforto com a pele, uma constante angústia na civilização, que faz com que as pessoas tentem ajustar a sua pele e se aproximar cada vez mais deste padrão, ou ainda, se afastarem das imperfeições físicas que acreditam carregar.


Tecnologias são produzidas a fim de se intervir nesse corpo e de se aproximar do ideal racista, como as cirurgias plásticas, alisamentos dos cabelos, cremes e água oxigenada para clarear a cor da pele, além de photoshops e retoques para clarear a imagem. Além disso, o que antigamente se reduzia apenas à uma questão de cor da pele, passou a se estender ao corpo como um todo, devido principalmente, ao desenvolvimento da mídia, do cinema, das revistas e das redes sociais, o que faz com que tenhamos o desejo de modificá-lo, recortá-lo, dividi-lo e até machucá-lo para reduzir as nossas angústias frente à um padrão tão opressor.


Além disso, o racismo fenotípico está intimamente relacionado ao racismo estrutural, que potencializa a naturalização do lugar do negro, que não só está submetido aos diversos preconceitos e violências com o qual se depara diariamente, mas como também ocupa um lugar de “não belo, não objeto de desejo”. E se naturalizamos e tornamos isso como normal, precisamos nos questionar urgentemente acerca destas relações! A realidade é que nós, pessoas brancas e detentoras dos privilégios, temos uma dívida histórica para com as pessoas negras! Isso porque esta relação de violência e superioridade branca tem raízes históricas, desde a escravidão e os períodos coloniais, que produziram consequências irreparáveis e de extermínio para a população negra. Precisamos desta maneira, levar este aspecto em consideração ao entender os privilégios destinados aos brancos e as relações de desigualdade e perda de direitos que são produzidas.

Aqui está um exemplo bem simples de como o racismo fenotípico pode produzir uma grande insatisfação com o nosso corpo! Ao fazermos uma pesquisa no Google utilizando o termo “mulheres bonitas”, quem serão as pessoas que irão ocupar e mostrar para você o que teoricamente é ser belo? Você tem um palpite? (obs.: Se você respondeu mulheres brancas e magras, dos cabelos lisos, acertou!!)

E é válido ressaltar que esse padrão opressor produz uma imagem tão irreal de “loirice e branquitude”, que atinge até as pessoas brancas que também terão uma relação de insatisfação com o próprio corpo!


Por fim, caso queira refletir ainda mais acerca desses padrões de exclusão, e como os mesmos são internalizados desde a nossa infância, sugiro que assista ao curta-metragem “Cores e Botas”, escrito e dirigido por Juliana Vicente. A história gira em torno de Joana, uma menina negra que possui um sonho comum a muitas meninas dos anos 80: ser paquita (no entanto, todas as paquitas do programa da Xuxa eram brancas). Desta maneira, a história ilustra a discriminação, a busca por auto aceitação e a naturalização do lugar do negro vivenciados por uma menininha que, desde muita nova, já aprendeu o significado das marcas de sua pele.


Referências

CARVALHO, José Jorge. Racismo fenotípico e estéticas da segunda pele. Disponível em: http://www.revistacinetica.com.br/cep/jose_jorge.pdf. Acesso em 19 de julho de 2020.

LOURO, Guacira Lopes. Marcas do corpo, marcas do poder. In: Um corpo estranho: ensaios sobre sexualidade e a teoria Queer. Belo Horizonte: Autêntica, 2008.

CORES e botas. Direção de Juliana Vicente. Brasil: Juliana Vicente, 2011. Youtube (16 min).


Crédito das Imagens

@sou_petrus, do artista Gabriel de Souza.

@morsenseoficial, do artista Claudio Mor.




Atendimentos em

Brasília - DF

Rio de Janeiro - RJ

Os atendimentos estão sendo online em virtude da pandemia

Redes sociais

  • insta
  • Sem Título-1