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Será que comida é só nutriente?

Não sei vocês, mas eu como, eu me delicio com os meus afetos, histórias e significados!


Comer é um ato que realizamos cotidianamente desde o nosso nascimento. É a primeira coisa que fazemos ao nascer e repetimos, várias vezes ao dia, por todos os dias das nossas vidas. É uma coisa aparentemente tão natural que não costumamos nos questionar o porquê comemos o que comemos e como comemos. Você já parou para pensar que quando a gente lida com a comida, a gente lida com questões humanas? Sejam as emoções, as memórias, as vivências, as tradições, a cultura...


Comemos o que comemos porque nossos antepassados realizaram escolhas alimentares baseados em tentativa e erro e, principalmente, devido a um saber coletivo construído pela experiência e também pelas crenças do que é bom e ruim, sendo assim, passado de geração em geração.



Como disse Jesús Contreras e Mabel Garcia no livro Alimentação, sociedade e cultura:


“Objeto de pactos e conflitos, os comportamentos alimentares marcam tanto as semelhanças como as diferenças étnicas e sociais, classificam e hierarquizam as pessoas e os grupos, expressam formas de conceber o mundo e incorporam um grande poder de evocação simbólica até evidenciar que, de fato, “somos o que comemos”.


A comida tem o poder de trazer a noção de pertencimento na medida em que comemos de acordo com os costumes e tradições que partilhamos com aqueles em que vivemos em um dado local. Um exemplo interessante e típico brasileiro é o açaí: no norte, se come açaí nas refeições principais com farinha e uma carne (peixe frito, camarão no bafo, charque) e, no sul e sudeste, se come açaí batido com banana e xarope de guaraná e granola ou aveia. Se oferecermos o açaí que é consumido no sudeste a uma pessoa do norte e que tem o hábito de consumi-lo no almoço, muito provavelmente não será bem aceito.



Outro aspecto interessante em relação à comida, é que além de possuir seu contexto socialmente construído e ter diferentes representações, ela participa do processo de construção de uma memória alimentar, ou seja, sentimentos e significados evocados com a comida e o ato de se alimentar, e se relaciona fortemente com nossas experiências alimentares vivenciadas quando crianças e na presença de familiares.


Isso fica muito evidente quando pensamos em alguma comida que gostávamos muito quando éramos crianças. Se te pedirem para nomear essa comida e descrever em que situações você a comia, quem preparava essa refeição para você e como você se sentia, muito provavelmente você irá contar com um sorriso no rosto. Possivelmente se recordará de alguém querido e se lembrará de como você se sentia quando tinha aquele alimento para comer.


A verdade é que a partir das experiências, individuais e coletivas, que temos com a alimentação, vamos formando uma série de memórias. Na situação acima falamos de um alimento que gostávamos e o mais provável é que esteja associado a uma memória positiva, mas o inverso também pode acontecer.


Além disso, a comida é um elo fundamental para o estabelecimento e manutenção das relações sociais. Pense, por exemplo, no papel da bebida alcoólica em um almoço de negócios, de um café para discutir algo importante com alguém do trabalho, ou no chocolate como agradecimento por alguém ter te recebido.

Como falamos no post anterior do blog, quando comemos, não nos alimentamos apenas de nutrientes, levamos também à boca uma série de significados. Reduzir o comer a uma atividade meramente biológica é não considerar aspectos sociais e culturais que estão intimamente relacionados ao ato de se alimentar, assim como não considerar a história de vida do sujeito e suas vivências.


Uma Série muito interessante que permite a ampliação do olhar em relação à alimentação, é a “História da Alimentação no Brasil”, disponível na Amazon Prime. Baseada na obra do antropólogo Câmara Cascudo, a série traz na forma de depoimentos de chefs, artistas, estudiosos e personagens anônimos brasileiros e portugueses, as tradições alimentares brasileiras, resultado da miscigenação entre índios, escravos africanos e colonizadores portugueses.



Referências

CONTRERAS, Jesús; GRACIAS, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011. 495p.

DUARTE, Amélia Cristina Stival. Os significados do comer saudável entre a rua e a casa: a apropriação do espaço na perspectiva da alimentação saudável. In: COLLAÇO, Janine Helfst Leicht; BARBOSA, Filipe Augusto Couto; ROIM, Talita Prado Barbosa. Cidades e consumo alimentar. Goiânia: Editora Imprensa Universitária, 2018. p. 165-197.

HISTÓRIA da Alimentação no Brasil. Direção: Eugenio Puppo. Produção de Eugenio Puppo. Brasil: Heco Produções, 2017. Amazon Prime Vídeos.


Crédito das imagens

Tirinha - Blog Balaio Quadrado

Açaí com camarão - @MTurismo
















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