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Você já ouviu falar sobre dificuldades alimentares?

É muito comum ouvirmos aquela história de que crianças que não conseguem comer é porque, na verdade, “são chatas”, “só querem chamar atenção”, “estão fazendo birra” ou que “são frescas”.


Também é muito comum, presenciarmos sentimentos de angústia, culpa e frustração por parte dos cuidadores, que normalmente apresentam relatos como: “Já procurei vários médicos e nutricionistas e ninguém consegue me dizer porque ele não come. E eu já tentei de tudo!! Já briguei, coloquei de castigo, coloquei na creche para ver se comia com os colegas, já forcei, deixei sem comer, prometi brinquedos e doces, fiz pratos enfeitados com os personagens preferidos… Socorro!!”



A questão é que, na verdade, comer é um ato complexo! Isso porque é a única tarefa corporal multissensorial, ou seja, que exige a integração de todos os 7 sentidos de forma coordenada (olfativo, gustativo, tátil, auditivo, visual, vestibular e proprioceptivo) - mas também é determinada por diversas variáveis biológicas (idade, sexo, composição corporal, genética), psicológicas (preferências, emoção, motivação, aspectos cognitivos), econômicas (preço, renda), culturais (rotina, religião, crenças) e sociais (classe social, gênero, etnia).


Assim, dada a complexidade do comer e a participação simultânea de todos os sentidos, torna-se necessário um olhar ampliado, e que o mesmo não seja reduzido apenas a uma mera ingestão de nutrientes. Este olhar ampliado sobre a alimentação também precisa ser incorporado ao comportamento alimentar infantil e às possíveis dificuldades alimentares que possam advir deste processo.


Sobre as dificuldades alimentares, Maranhão e colaboradores (2018) as define como: “[...] todo problema que afeta negativamente o processo dos pais ou cuidadores de suprirem alimento ou nutrientes à criança.” Esse termo, que é abrangente, abarca diferentes problemas alimentares, com vários níveis de gravidade, podendo ou não influenciar no estado nutricional, na relação com a família e interação com os pares.


Durante o desenvolvimento da criança, recomenda-se que até os 6 meses de idade ela esteja sob amamentação de forma exclusiva e que, a partir dos 6 meses de idade, ela entre em uma fase de experimentação de novos tipos e consistências de alimentos. Assim, olhar, cheirar, tocar, e se sujar com o alimento são algumas das necessidades que a criança apresenta para conhecer a si, aos objetos e ao mundo, entrar em contato com sua percepção de fome e saciedade, formar suas preferências, manusear e interagir sensorialmente com os alimentos.


No entanto, nesses primeiros meses de vida, ou ainda, em anos posteriores, pode se iniciar uma dificuldade alimentar, que pode ser transitória ou persistente, e pode se manifestar por meio de recusa, pouco apetite, dificuldades em engolir, aversões, vômitos, cólicas, apetite insuficiente, diminuição ou ganho de peso, dificuldade em reconhecer os sinais de fome e saciedade e seletividade.


De modo a facilitar a compreensão e comunicação das diferentes problemáticas envolvidas nas dificuldades alimentares, alguns autores vêm tentando definir os diferentes termos utilizados quando se fala em dificuldades alimentares. Sendo assim, optamos por utilizar como base as definições propostas no estudo de Kerzner e colaboradores (2015):


Dificuldade alimentar - Um termo “guarda chuva” e abrangente que indica haver algum problema ou um sinal de que há algo errado na alimentação da criança.


Transtorno da alimentação - Nomenclatura que se refere a uma grave perturbação alimentar com consequências físicas, emocionais, nutricionais e orgânicas. No Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais-V (DSM-V) é identificada e equivalente ao Transtorno alimentar restritivo evitativo (TARE).


Neofobia alimentar - recusa de novos alimentos. É esperado que crianças apresentem esta recusa principalmente de 2 aos 5 anos de idade, período em que ocorre uma redução da taxa de crescimento e maior aquisição de autonomia. Essa fase tende a ser passageira a medida em que realiza-se exposição repetida e gradual à esses alimentos.


“Picky eating” ou seletividade alimentar - Este termo é o que menos possui uniformidade em meio científico, apresentando várias definições a depender do país de origem. Alguns identificam como aquelas crianças que selecionam o que comem e tem um apetite limitado. Outros significam este termo como crianças que são levemente seletivas por conta de alterações sensoriais.


É importante ressaltar que precisamos identificar estes problemas o mais cedo possível uma vez que diversos prejuízos biopsicossociais podem ocorrer tanto para a família quanto para a criança, como alterações no desenvolvimento, conflitos familiares e emocionais, estigmatização da criança, privação de momentos sociais que envolvam a comida, culpa, angústia e sofrimento e estabelecimento de uma relação não saudável com a comida.


Além disso, estudos mostram que dificuldades alimentares na infância, podem se tornar transtornos alimentares na adolescência. Sintomas gastrointestinais e seletividade na infância, por exemplo, foram relacionados com anorexia na adolescência, assim como comportamentos disfuncionais no momento da refeição, e a ingestão de substâncias não alimentares na infância como por exemplo sabão, tijolo, terra, dentre outros (conhecido como pica), estiveram correlacionados com bulimia nervosa na adolescência.


Para que o diagnóstico ocorra da melhor forma possível, é muito importante que a criança seja avaliada por uma equipe interdisciplinar. Além disso, é importante que ela e sua família sejam escutados e acolhidos!


Dificuldade alimentar não é frescura e precisa ser cuidada!


Referências

JUNQUEIRA, Patrícia. Por que meu filho não quer comer? Uma visão além da boca e do estômago. Bauru: Idea Editora, 2017.

KERZNER, Benny et al. A Practical Approach to Classifying and Managing Feeding Difficulties. Pediatrics. v. 135, n. 2, 2015.

MARANHÃO, Hélcio de Sousa et al. Dificuldades alimentares em pré-escolares, práticas alimentares pregressas e estado nutricional. Rev Paul Pediatr. v. 36, n. 1, p. 45-51, 2018.


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