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Você já pensou que os motivos pelos quais nos alimentamos são muito mais complexos do que parecem?



O nosso comportamento alimentar não é algo simples, caracterizado somente pela ingestão de nutrientes. O nosso comer e a escolha alimentar são influenciados por fatores do próprio indivíduo ou do ambiente em que ele vive (fatores intrínsecos) e fatores relacionados ao alimento em si (fatores extrínsecos), como:


- Fatores extrínsecos: sabor, aparência, higiene e características sensoriais, sazonalidade dos alimentos.


- Fatores intrínsecos: Biológicos (sexo, idade, estado nutricional, genético); Psicológicos: (preferências, motivação, emoção); Sociais (nível de escolaridade, classe social, gênero, etnia); Econômicos (preço, renda, disponibilidade); Culturais (rotina de vida, religião, ideologia, crenças, sustentabilidade)


Uma vez que somos indivíduos inseridos em uma cultura, nos construímos e nos desenvolvemos a partir das interações com este ambiente, sendo necessário compreender os espaços que ocupamos, nos relacionamos, vivemos e produzimos cultura. Precisamos entender ainda, quais são as crenças, pensamentos, comportamentos, desejos, frustrações, impulsos, tradições, fantasias e representações que temos sobre a comida e o corpo.


Pensar na saúde como um todo, e não só na condição biológica, permite que a gente se entenda dentro de um contexto biopsicossocial, ampliando o nosso olhar sobre essas questões.


Pensando neste contexto, muito provavelmente você já tentou mudar a forma com que come… talvez comer mais legumes, frutas e verduras, comer menos açúcar ou menos gorduras, etc. Você lembra como foi esse processo?

A mudança dos nossos hábitos alimentares é um processo extremamente complexo e desafiador, afinal de contas, eles são comportamentos repetidos cotidianamente por muitos e muitos anos e fruto das nossas interações sociais (em casa, na escola, no trabalho, etc), da cultura em que vivemos, do nosso poder econômico, do que temos acesso, além dos nossos aspectos individuais como valores, identidade e experiências prévias.⁠

O processo de mudança de hábitos alimentares costuma ser resumido a uma questão de foco e força de vontade e existe um imaginário de que é um processo linear, onde em um dia se consegue fazer uma mudança, no outro mais uma mudança e por fim se atinge a perfeição e se conclui o processo. ⁠

No entanto, como defendia o psicólogo Michael J. Mahoney, o processo de transformação humana reflete um equilíbrio dinâmico pontuado pela alternância de fases e forças de mudança e de estabilização, como em um movimento de balanço. ⁠

Se pensarmos nas nossas próprias tentativas de adotar um novo comportamento alimentar, percebemos que de fato o processo não é linear.. às vezes conseguimos manter um novo hábito por alguns dias, mas são muitos os desafios e facilmente voltamos ao nosso padrão alimentar inicial e então tentamos novamente. Eventualmente a mudança ocorre, mas como um balanço em movimento, horas lá no alto, horas lá em baixo e depois, novamente lá no alto.

Dada a multiplicidade de fatores envolvidos no nosso comportamento alimentar, torna-se fundamental a exploração dos motivos e motivações para se realizar as mudanças alimentares, uma vez que a forma que comemos está permeada de nossas histórias de vida, afetos e valores. Quando realizada deste modo, encontramos nossos reais motivos para a mudança (que são únicos para cada pessoa) e servirão de força motriz para a mudança.


Infelizmente, estamos vivendo em uma época em que muitas pessoas em sofrimento com a comida e o corpo, apresentando comportamentos disfuncionais e um comer transtornado. Neste contexto, a comida acaba sendo categorizada em alimentos bons e ruins, saudáveis e não saudáveis, permitidos e não permitidos e associada a sentimentos ambivalentes - prazer e culpa.


A comida saborosa é considerada não saudável e entendida como algo que deve ser evitado. Deste modo, esses alimentos acabam sendo consumidos apenas em situações eventuais como festas e saídas, ou mesmo como recompensa, prêmio ou “calmante”. Quando os indivíduos consomem estes alimentos, frequentemente sentem angústia e o comem em maior quantidade e o fazem tão rapidamente que mal conseguem saborear aquilo que estão comendo e, quando vêem, a comida já acabou!


Há aqueles que preferem comer sozinhos, longe de possíveis comentários e olhares julgadores! Ou ainda, em substituição aos alimentos saborosos come-se, sem prazer, alimentos considerados “permitidos”, alimentos em versão saudável, sem glúten, sem lactose, sem açúcar, light… simplesmente porque têm menos calorias ou acredita-se serem mais saudáveis. ⁠ A questão é que comer desta forma não satisfaz, mesmo que se aumente a quantidade!


Enquanto houver uma dicotomização entre alimentos saborosos X não saborosos, não saudáveis X saudáveis, permitidos X não permitidos, os alimentos saborosos não serão legitimados como comida que nutre, alimenta e sacia. Estas ambivalências provocam ansiedade, sofrimento, sensação de perda de controle, desajuste social, dificuldade em controle de peso, prejuízos psicossociais e se agravam com o crescente discurso moral de que devemos “ter moderação e autocontrole”. Lembre-se que quando nos alimentamos, buscamos nos nutrir - de nutrientes e significados - e também obter prazer. Não apenas aquele prazer de encher a boca d’água devido ao complexo estímulo sensorial que ingerir um alimento provoca, mas também sensação de bem estar, e plenitude. ⁠

Também é comum vermos na mídia a ideia de que “açúcar vicia”, ou que há “vício em comida”. Mas até que ponto fazer essa associação pode, na verdade, gerar uma relação disfuncional com a comida? Primeiramente, estudos que tentam verificar o potencial aditivo do açúcar e dos carboidratos, foram feitos em ratos e, estudos em humanos, não conseguem dizer qual seria a concentração de açúcar que poderia gerar este tal “vício”. Sem falar que nestes estudos, um dos protocolos utilizados é colocar os ratos em privação e restrição alimentar antes de verificar esse “vício”. ⁠


Como já dissemos anteriormente, a privação e a dieta causam uma bagunça metabólica no corpo, fazendo com que naturalmente se crie obsessão por comida. Além disso, ratinhos, por mais fofos que sejam, são animais e não estabelecem uma relação biopsicossocial e afetiva com os alimentos assim como nós, né pessoal?

Há pessoas que falam: “Ah, eu tenho vício em comida porque não consigo ficar sem ela!” Mas a verdade é: quem consegue ficar sem se alimentar? A mentalidade de dieta faz com que tenhamos uma relação tão doente com a alimentação, que passamos a acreditar que se não conseguimos ficar sem comer e ter “autocontrole sobre os nossos impulsos”, nós é que somos os errados e fracos. Se um alimento está te causando tanto sofrimento desta maneira, precisamos na verdade entender o porquê, qual a função e a relação deste em sua vida, desmistificar tabus alimentares e a dieta.⁠

Por fim, não há evidência científica de que um alimento específico possa causar vício. Não só isso, a comida não tem potencial de gerar uma crise ou síndrome de abstinência, em que se há um grave quadro clínico, com alucinações, convulsões, vômitos, taquicardia, agitação. Quando atribuímos a característica de vício ao comer, dizemos que os nossos comportamentos alimentares podem ser medicalizados “porque são errados e precisam ser curados e corrigidos”. Que tal nos darmos a permissão incondicional e valorizarmos o nosso prazer em comer?⁠



Referências:

ALVARENGA, Marle et. al. Nutrição Comportamental. 2019. São Paulo: Editora Manole (2ª ed.)


Créditos das Imagens:

Imagens adaptadas de Freepik












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